Em bom Português: “Correcto” ou “Correto”?

12 06 2008

 

Muito se tem falado sobre o novo Acordo Ortográfico e de que forma este alterará o nosso património linguístico-cultural. É natural que no meio de tanta desinformação surjam ”informações” disparatadas, desproporcionais e distorcidas deste acordo.

Devemos aceitar as divisões de opinião, a falta de consenso e o debate em que emergem sempre estas questões como uma forma construtiva de se alcançar uma situação ideal. Para um tema tão sensível como este, é expectável que surja controvérsia. Toda a comunidade lusófona, incluídos professores catedráticos, linguistas e escritores, permanece dividida.

Neste jogo, todas as partes têm os seus motivos e pretensões. Surge algum nacionalismo pouco comum numa sociedade como a Portuguesa e o verdadeiro motivo para este acordo das lusofonias passa-nos ao lado.  

Sem entrar em questões de fundo, pois essas podemos deixa-las no punhado de alguns linguístas, uma das razões que me faz/faria acreditar neste acordo é o seu lado apaziguador e de união  diplomática dos povos lusofonos evitando ser o que na prática é, um acordo ente o Brasil e Portugal.  Negligenciando os povos Africanos, este acordo subscreve uma tendência crescente de maior entendimento entre Brasil e Portugal no domínio da Língua.

Outros motivos frequentemente evocados para esta revisão ortográfica residem em questões económico-culturais e de geoestratégia. Neste ponto convenhamos que uma maior difusão da língua não deve ser feita por unificações ortográficas estabelecidas por decreto, mas sim por conteúdos culturais de difusão. Por aí deveria passar uma estratégia de internacionalização da língua.

Como se deduz, isto é essencialmente uma questão diplomática e de bom senso. Esta revisão é mais do que aguardada pelos PALOP’s não me parecendo sensato deliberações precipitadas sobre este tema.

Apesar de todas estas considerações, o acordo em si pode não resultar. A promiscuidade e predominância de questões políticas, que arrastadas durante anos podem resultar num acordo onde “todos querem mexer”. A isso acrescente-se a resistência e inflexibilidade mais ou menos natural das sociedades em relação às suas identidades e símbolos nacionais.  A representação mental e gráfica que temos sobre determinada palavra se alterada poderá gerar desconforto. Sendo uma questão muito séria do ponto de vista da adesão individual, não deve ser considerada na opinião de muitos linguistas e especialistas na matéria, como um problema facilmente resolvido por decreto e/ou iniciativas governamentais. 

Para ultrapassar todas as questões demagógicas proponho-me a exemplificar o que faz parte e não faz parte deste acordo ortográfico e assim facilitar uma reflexão racional sobre o acordo!

A uniformização gráfica não será total como alguns meios de telecomunicação nos fazem acreditar mas isso ficará para um post futuro!

 

  

 

 

 

 





Bird People in China ~os homens-pássaro~

12 06 2008

 

 

Bird People in China conta a história de um jovém trabalhador Japonês (Mr. Wada) que é enviado pela firma onde trabalha ao interior da China na pesquisa de pedras de Jade (pedra preciosa originária de algumas regiões Chinesas).

 

Pelo caminho encontra um violento e traumatizado Yakuza (Mr. Shen) que tem ligações à Empresa onde trabalha o jovem Wada e aguarda as pedras como uma forma de pagamento de dividas antigas.  Assim começa a jornada que mudará para sempre a vida dos personagens.

 

Parte do filme inspira uma espécie de Road Movie pela China mais tradicional, com todo o tipo de complicações: perda de memoria do Guia que os acompanha; os difíceis meios de transporte; e outras situações realmente caricatas que nos imprime um humor  ”estúpido” e genuíno. Todavia, o verdadeiro conflito/problema que dominará as personagens, Mr.Wada e Mr.Shen, será interno.   

 

Após uma longa e acidentada viagem, onde se pode apreciar as não sempre evidentes diferenças entre Chineses e Japoneses (pelo menos para alguma arrogância ocidental), chegam a uma pequena povoação quase medieval onde o tempo parece ter parado e onde existe uma obsessão muito estranha por voar.

 

Um dos aspectos mais destacáveis nesta película é a sua beleza Visual. Durante e depois a longa viagem, os dois protagonistas desta historia, vêem-se rodeados por uma paisagem milenar por onde o tempo e o dito “desenvolvimento” não passou.

 

Desta vivência visceral resultam mudanças nos personagens. O realizador coloca-nos (a nós e às personagens deste filme) longe do quotidiano, dos objectivos marcados no calendário, das vidas programadas e do pragmatismo funcional das sociedades actuais.

 

Uma das leituras deste filme, será como por força do empirismo se pode mudar tudo se assim o desejarmos. Mr.Shen, o Yakuza frio e sem pudor, que representa a degradação total de uma sociedade privada de emoções e reais objectivos de desenvolvimento, é alvo de uma mutação de espirito pela experimentação de uma nova forma de vida. A beleza paradisíaca da natureza daquele espaço bem no interior da China e uma certa mística na crença de uma cultura milenária no estudo da capacidade de voar, faz com que pouco a pouco este pobre homem se sinta moralmente destinado a preservar este lugar, esquecendo não só os motivos que o levaram ali, como também todo o seu passado Yakuza. 

Saldar a divida que a empresa representada por Mr.Shen tem com a Yakuza ou salvar um lugar mítico e uma civilização de homens-pássaro contra a manifesta corrupção de uma civilização global?

 

Este intercâmbio de realidades culturais, afasta todo e qualquer etnocentrismo, e transforma todos os personagens (habitantes da vila “ancestral” e Japoneses) através das suas percepções individuais.

 

Um filme que explora na consciência de cada um, (ok, os mais conscientes) o “absurdo” do mundo de hoje transportando-nos para um “belo mundo” que pouco a pouco vai perdendo o seu sentido de existência.  

 

Mudemos esse “Sense of time!”.

  

Realização: Takashi Mikee

Fotografia: Hideo Yamamoto

Ano: 1998

Origem. Japão