
Da ficção aos papers académicos passando pela experiência pessoal apercebo-me como tão pouco se alteram aspectos fulcrais na criação de traços de carácter e de personalidade das crianças e jovens. Por vezes assisto com certa inquitude como por puro sensacionalismo ou ingenuidade social a comunicação social noticía eufemisticamente casos de “violência contra a mulher”. Há uma crescente falta de profundidade nesta questão que é lamentável!
O Machismo que é quase uma doença crónica para todos aqueles a que “(in)voluntariamente” lhes foi imposto tem um peso substancial no índividuo mas também na sociedade onde se insere. Em Sociedades onde este “rasgo de carácter” é epidemia social resulta ou não num maior número de casos de violência? Sim? Não? Talvez…
Reflectindo um pouco mais sobre as potênciais razões para o machismo nas sociedades contemporâneas e colocando a tónica do debate na condição do feminino sob o ponto de vista da aceitação/ não aceitação do seu próprio Status quo na esfera social, é plaúsivel embora perverso pensar da seguinte forma: “existirá machismo no feminino”?
Um artigo que li recentemente, (“o machismo das mães”; Lima, 2006) falava de como através do “autoristarismo” e da condução de determindos valores morais nas “mães” (de um passado recente, mas ainda bem presente) é imprimida uma visão sistémica do mundo onde no centro se mantém o “homem”.
Sendo vitímas do machismo impregnado pelo Social não é de estranhar que muitas mães mostrem-se manifestamente incapazes de educar os seus filhos para serem não-machistas. (Lima, 2006)
A maior das ironias surge quando as próprias “mães” acham giro ter um filho “machão”, “duro”, “que mostre como é que é”!
Evidentemente, a cultura patriarca (política e religiosa) onde o “pai” era a lei ou uma figura de autoridade tem sido diluída nas últimas decadas fruto de uma luta travada pelos movimentos feministas contra uma cultura imposta durante centenas de anos que na nossa sociedade tinha como principal aliado uma Instituição de peso, a igreja.
Apesar da libertação feminina do dominus masculino a que se assistiu recentemente, ainda é dificil devido factores intrisecamente sociais e estereótipados, que a mulher preencha poderes tipicamente associados aos pais (no masculino). Quando é demasiado permissiva às exigencias/ pedidos dos filhos pode ser reforçado a imagem de “submissão feminina” ou inclusive um ”machismo precoce” do filho é “alimentado” tal como refere o psicanalista Raymundo de Lima: ” Quando uma mãe se cala diante de um “eu quero” do filho, de um “vou sair”, ou da sua falta de respeito por não fazer o que ela lhe pede, pode tanto reforçar a imagem de submissão feminina como valorizar indevidamente o machismo precoce do filho.”
Muitas vezes nas brincadeiras inofensivas das crianças surge um carácter revestido de machismo. Já Freud debruçava-se sobre esta questão. Os pais (mães e pais) autorizando este tipo brincadeiras acabam por promover um machismo consciente e autorizado ao filho não incentivando uma abordagem não-machista de tudo o que o rodeia reflectindo-se num rasgo importante de personalidade futura.
A cultura de séculos transformou-se em imperativo social e consequentemente numa feminilidade velada ao masculino. Por outro lado, sejamos conscientes do “teatro” que são os meios de comunicação social e praticamente toda a industria do entretenimento que transbordam as premissas do machismo do seculo XXI. Finalmente, na mentalidade actual urge silênciar ou reprimir sentimentos e emoções aos meninos incentivando-os sim à aventura, ao ser “macho”, desenvolvendo por outro lado principalmente na adolescencia atitudes irresponsáveis e de risco enquanto as meninas se mantêm “obedientes” ou condicionadas!
Fica a questão: Se o machismo tem como principal consequência violência dita doméstica (domesticada talvez seria a palavra mais adequada) porque insistimos em alimentá-lo nas nossas sociedades?